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domingo, 29 de novembro de 2015

Dia 20. Vai ou não vai? Decida-se



Quinta-feira, 21 de agosto de 2014.
De Maragogi/AL a Nossa Senhora das Dores/SE (450 km).

Um tempo chuvoso se fez presente logo no início do dia trazendo incertezas sobre a viabilidade do passeio às galés de Maragogi/AL. Um dia de indecisões e mudanças de plano. Este é o relato de mais um dia na Expedição Litoral Nordestino, uma viagem de moto que realizei sozinho pelo nordeste brasileiro durante o mês de agosto de 2014. Belíssimas paisagens foram vistas e muitas experiências foram vividas: da calmaria de um encantador pôr do sol em Jericoacoara/CE à fuga alucinada, na calada da noite, em Petrolina/PE... fortes emoções foram vivenciadas. Continue lendo para acompanhar a viagem.

O diabo desta vida é que entre cem caminhos temos que escolher apenas um, e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove.
Fernando Sabino

Trajeto do dia



Mas, que enrolação...

Como de costume, bem cedo já me encontrava pulando para fora da cama, lá pelas 6h da matina. Conforme combinado com o guia no passeio do dia anterior, caso não estivesse chovendo, iríamos até as piscinas naturais de Maragogi/AL às 7h. Estava ansioso e tão mais fiquei quando ao levantar e olhar pela janela avistei o céu encoberto por nuvens cinzentas de chuva.


Uma leve garoa caía. Até pensei que se as condições continuassem aquelas, então, sem dúvida, não haveria passeio algum. É conveniente saber que não se pode visitar as piscinas naturais a qualquer hora do dia, pois, há que se estar atento à altura da maré. 

Além disso, de acordo com a explicação do guia, a janela de tempo para apreciar as galés também não seria muito extensa e não poderíamos aguardar muito para partir, pois, de outra forma, não teríamos a chance de chegarmos a tempo de ver a bela paisagem formada pela barreira de corais em alto mar.

À medida que os minutos passavam não via melhora alguma nas condições climáticas e cada vez mais fui perdendo as esperanças de que o passeio se concretizasse. Como estava em um ritmo acelerado de viagem, ou seja, passando 1 ou 2 dias (no máximo) em cada localidade turística que havia escolhido para conhecer ao longo da viagem, então, num determinado momento, comecei a ponderar a respeito de abandonar o passeio e partir imediatamente para a estrada em busca do próximo ponto turístico.

Já passara do horário acordado de saída para o passeio quando, por fim, antes mesmo de ter notícias do guia turístico, já convencido de que não veria nenhuma piscina natural por ali, decidi zarpar por conta própria. O cronograma da viagem estava em dia e minha intenção, caso tudo continuasse correndo bem, era a de avançar para o interior do Estado de Sergipe, mais precisamente até a cidade de Canindé de São Francisco, a partir da qual poderia conhecer o magnífico “Cânion do Xingó”, no rio São Francisco.

— Como assim zarpar sozinho? – poderia indagar o leitor.

Isso mesmo, terminei de recolher os poucos pertences que estavam fora do último baú da moto que ainda não estava totalmente arrumado e os acomodei lá dentro. Havia decidido ir embora. Para minha surpresa, enquanto trocava de roupa, pouco antes de terminar de colocar por completo o uniforme de viagem, ouvi alguém bater na porta. Era um funcionário do hotel que veio comunicar-me, às 7h40, que meu guia avisava sobre a iminência da partida.

Já com minha decisão tomada fui até a recepção do hotel, andando de meias mesmo e ainda com as botas por vestir, apenas para comunicar que não mais iria no passeio. Assim o fiz e pedi desculpas pela desistência. Muito atencioso, ele entendeu minha posição e bateu em retirada, mas, não sem antes, num último golpe de esperança de sua parte, tentar convencer-me a partir com ele, mar adentro, para conhecer as tão famosas piscinas naturais, mesmo não podendo garantir que as veria em sua melhor performance de exibição... por causa do tempo nublado e chuvoso daquele momento.

Inicialmente, resisti, porém, confesso que subi as escadas e percorri todo o corredor que dava acesso ao meu quarto pensando se aquela teria sido uma boa decisão. De volta ao quarto, terminei de vestir as botas e, em seguida, de forma padronizada, fui distribuindo nos bolsos aqueles pertences essenciais e de uso mais comum.

Finalmente com o capacete e flanela à mão para livrar a viseira de toda aquela sujeira causada pelos “milhares” de insetos que ali se espatifaram na viagem do dia anterior, tive um pensamento e um instante de lucidez: — como assim vou embora? O céu já se via mais estável e o guia com a embarcação prestes a partir. Tinha vindo de longe e escolhido belas paisagens para contemplar e, nesse momento, por causa de uma chuvinha, iria deixar escapar a oportunidade?

— Não mesmo... – retruquei. 

Poderia interpretar o leitor que sou doido e desnorteado, mas, voltei atrás e em num piscar de olhos troquei toda a roupa novamente. Coloquei calção de banho, camisa de praia, chinelo de dedo, pequei a mochila que ainda estava arrumada com alguns itens básicos de passeio (tais como água, e acessórios da câmera de vídeo), corri escada abaixo e saí do hotel em direção à praia.


E agora? Onde está a minha carona?

Ao procurar e perguntar pelo guia fui informado de que já havia partido. Pois bem, já esperava ouvir essa resposta. Felizmente, após alguns contatos, consegui arrumar carona em outro barco, coincidentemente, do irmão do guia com quem eu havia tratado inicialmente. Na verdade, uma lancha. Então, zarpamos.




Em poucos minutos chegamos à barreira de corais. Como esperado, dali de cima do barco não foi possível ver muita coisa, pois, a maré já estava mais alta e os corais, vistos daquela posição, mais pareciam com grandes manchas negras embaixo d’água.




— Muito bem, sem problema. Se daqui do barco não dá para ver direito, então, vamos para a água. – pensei comigo mesmo.


Acho que consigo ver melhor por baixo

Rapidamente, me atirei para fora da lancha.



Após algum tempo nadando por ali, o guia me chamou a atenção para um instrutor de mergulho que perguntou se havia algum passageiro de seu barco que gostaria de realizar um mergulho guiado para conhecer melhor os corais.

Ora, comparando com os mergulhos de apenas 10 segundos que eu conseguia realizar por conta própria (consequência do sedentarismo e falta de exercícios físicos), pensei que seria uma boa ideia ter a ajuda de um cilindro de oxigênio. Apesar de nunca ter participado de uma atividade como essa, fiz sinal que sim. Depois de combinados o valor da atividade (R$100,00) e as condições do mergulho, lá estava eu com o tanque de oxigênio amarrado às costas.



O guia me deu algumas instruções iniciais e foi me conduzindo até o ponto em que começaríamos o mergulho. O início foi bastante cômico porque eu não conseguia iniciar o mergulho. Em outras palavras, não conseguia “afundar”, pois, até me acostumar a respirar corretamente tive que voltar à superfície várias vezes.

Não havia problema nenhum com o equipamento de mergulho, mas, a sensação de estar com o nariz tapado pela máscara e de precisar respirar somente pelo bico do tanque de oxigênio me angustiaram no início da atividade.

Ahhh! Mas, nada como o tempo para nos acostumarmos e aprendermos a lidar com uma situação... E sim, é claro, para entendermos que as condições sempre podem piorar. Isso mesmo, até que consegui me acostumar com a forma diferente de respirar, contudo, minha barba passou a ser o problema da vez. Ou melhor, o meu bigode.

Em outras palavras, a máscara de mergulho se encaixava logo abaixo do nariz e, por causa do meu bigode, não ficava completamente vedada. Consequentemente, à medida que descíamos, após algum tempo, a máscara ia se enchendo de água até que chegava a um ponto em que não era possível ver mais nada. Eu não estava de choradeira, mas, os meus olhos se enchiam d’água. E aí tínhamos que emergir novamente.

Enfim, chegou um momento em que falei para o instrutor que naquelas condições não daria para desbravarmos as regiões mais abissais dessa parte do oceano e que eu me contentaria em ficar mais no “rasinho” da piscina.




Se viu, viu. Se não viu, então, fica para uma próxima vez

Assim que terminaram as atividades do mergulho retornei para a embarcação e ali fiquei até que todos estivessem a bordo novamente para retornarmos até a praia de Maragogi/AL. Após uma hora e meia de diversão demos meia-volta e fomos embora.






Também teria que pegar as fotos do mergulho, mas, o instrutor ainda não havia chegado. Então, fui direto para o hotel adiantar a minha saída. Dessa vez, em definitivo, recolhi todos os meus pertences e carreguei a moto com a bagagem.



No local combinado, bem em frente ao hotel, peguei o DVD com as imagens do mergulho e parti para a estrada.






O mau tempo não deu trégua

O tempo estava bem nublado. Peguei uma estrada muito bonita que vai pelo litoral, margeando o mar, no sentido para Japaratinga/AL e em direção ao sul. Em muitos pontos a tinha coqueiros dos dois lados formando uma bela paisagem que, não tenho dúvidas, seria ainda mais surpreendente se o sol estivesse presente. Mesmo assim, apesar da chuva, valeu a passagem por ali.




Noutros pontos, foi uma verdadeira aventura porque não havia pavimentação e a estrada estava toda enlameada. A menor desatenção poderia fazer a moto escorregar e ir de encontro ao chão.



Alguns km adiante, cheguei ao Rio Manguaba onde precisaria atravessar de balsa para o outro lado, até o vilarejo de Porto de Pedras/AL. Ao chegar nesse ponto avistei uma balsa de tamanho menor que imaginei servir para transporte de pessoas. Então, parei mais perto da outra embarcação onde já havia um carro estacionado.



Nesse momento, o “comandante” do pequeno barco fez sinal de que eu poderia atravessar o rio com ele. Não perdi tempo e com sua ajuda logo colocamos a moto para dentro da barquinha, entrando de ré, para facilitar a saída quando chegássemos à outra margem do rio. E lá fomos nós.








Posso adiantar que atravessei o Estado de Alagoas inteiro debaixo de chuva. A situação ficava pior ainda quando passava nos locais onde a estrada estava em manutenção. Na maior parte deles fui obrigado a me equilibrar sobre areia ou barro presentes no percurso em reforma.






Mudança de planos

Um dos lugares que havia programado para conhecer era a praia de São Miguel dos Milagres/AL, contudo, haja vista as péssimas condições climáticas do momento, não vislumbrei outra alternativa a não ser a de ignorar esse ponto turístico e seguir em frente, deixando-o para uma outra oportunidade. O máximo que conheci desse belo local foi a beirada da praia onde parei para registrar minha passagem por ali, mesmo debaixo de chuva.




A viagem continuou pela AL-101 (estrada que margeia todo o litoral alagoano), sempre passando por linsdas paisagens cujo encanto, em parte, foi ocultado pela cortina do mau tempo.




Mais à frente, à medida que me aproximava da capital Maceió/AL, a estrada ficava cada vez pior, com muitos buracos e irregularidades na pavimentação. Na entrada da cidade, em torno do horário de almoço, o trânsito tornara-se lento e o rendimento da viagem piorou bastante.

Após ter parado em um posto de abastecimento para encher o tanque da moto fiz um areflexão: inicialmente, tinha planejado ir seguindo por essa mesma estrada por causa das paisagens que poderia encontrar no caminho até o ponto onde retornaria para a BR-101. Entretanto, as condições em que estavam o trânsito, a estrada e o tempo me impediriam de aproveitar realmente o “passeio” e me fariam ter pouco rendimento e chegar ao final do dia com poucos km rodados.

Consequentemente, achei mais conveniente antecipar o retorno para a BR-101, onde poderia seguir mais rapidamente. Assim imaginava. Então, indiquei no mapa do GPS o local em que queria chegar na BR-101 e, simplesmente, daí em diante, apenas obedeci suas recomendações.

Dito e feito. A viagem, de fato, rendeu mais. Haja vista que me encontrava em dia com o cronograma, também já estava decidido a desviar o trajeto planejado da viagem a fim de conhecer o Cânion do Xingó, no rio São Francisco.


Acorda! Preste atenção na estrada

Antes dessa mudança de rumo eu pensava em pernoitar em Aracaju/SE e, de lá, seguir pela rodovia SE-230 até a cidade de Canindé de São Francisco/SE (cidade base de acesso aos passeios de barco pelo rio São Francisco). Contudo, como tomei a BR-101, eu deveria estar atento aos pontos de desvio que me levariam para o interior do Estado de Sergipe. E não é que, por desatenção, passei por uns dois ou três pontos de desvio na estrada até chegar, por volta das 17h30, no último acesso que me permitiria ir por um caminho mais direto até a cidade de Canindé...

Estava completamente distraído pensando que deveria ir até Aracajú/SE, como planejara inicialmente, mas, como tinha alterado o percurso em Maceió/AL, então, deveria ter desviado antes para o interior de Sergipe. Entretanto às vezes, podemos contar com uma ajudinha da sorte, então, me considerei sortudo quando ao parar em um posto para abastecer a moto tomei consciência da besteira que estava fazendo. Rapidamente conferi no GPS a minha posição na estrada a fim de saber se ainda haveria tempo para corrigir o trajeto sem grande prejuízo no caso de ter errado muito.

Comprovei estar a, mais ou menos, 1 km de distância do último ponto onde poderia me desviar para chegar de forma mais direta em Canindé de São Francisco/SE. Se tivesse passado dali teria que retornar ou dar uma volta bem maior.



Era quase noite quando deixei o posto de abastecimento. Por medida de segurança, tinha em mente que não iria dirigir noite adentro para não dar brecha para o azar, então, segui por mais meia hora até a cidade de Nossa Senhora das Dores/SE onde encerrei as atividades desse dia de viagem. Pernoitei num hotel à beira da estrada, localizado em um posto de gasolina na entrada da cidade.



Hotel: R$50,00


Dicas de viagem


  • Aos barbados de plantão, quando forem participar de atividades de mergulho, será melhor rasparem um pouco a parte de cima do bigode a fim de que a máscara de mergulho se encaixe melhor no rosto, evitando que a água do mar se infiltre em seu interior.



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