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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Dia 05. Minha nossa! É melhor sair logo daqui


Quarta-feira, 06 de agosto de 2014.
De Lençóis/BA a Petrolina/PE (700 km).

Um dia de viagem que deveria ser, aparentemente, calmo e tranquilo termina em fuga, desconfiança e receio de assalto em Petrolina/PE... Este é o relato de mais um dia na Expedição Litoral Nordestino, uma viagem de moto que realizei sozinho pelo nordeste brasileiro durante o mês de agosto de 2014. Belíssimas paisagens foram vistas e muitas experiências foram vividas: da calmaria de um encantador pôr do sol em Jericoacoara/CE à fuga alucinada na calada da noite em Petrolina/PE... fortes emoções foram vivenciadas. Continue lendo para acompanhar a viagem.
Trame, planeje, calcule, postule, o quanto quiser. Sempre existirão surpresas à sua frente. Conte com isso! - Henry Miller

Trajeto do dia




Um café da manhã nada saudável

Costumeiramente, a cantoria da banda AC/DC se encarregou de colocar-me de pé na manhã desse dia de viagem, que seria bem longo. Acordei às 5h15 e, como já havia organizado a maior parte da bagagem na noite anterior, não tive muito trabalho para juntar tudo e carregar a moto.

O café da manhã na pousada não estaria disponível até o horário em que desejava partir, então, sabendo disso, convenientemente, no fim da tarde do dia anterior havia comprado algo para substituir o café. Tomei achocolatado de caixinha e comi umas barras de cereal de chocolate acompanhados daqueles bolinhos industrializados, também, de chocolate.


— O que é isso, menino? – Diria a minha avó materna, em tom de repreensão.

Logo retrucaria, noutros tempos:

— Os ingredientes perfeitos para uma bela dor de barriga no meio da estrada.

Assim, às 6h, sem perder tempo, parti, pois, já tinha acertado todas as contas da pousada na noite anterior. O destino, agora, seria continuar rumando para o norte, em direção aos lençóis maranhenses. Era certo que não chegaria no Maranhão nesse mesmo dia, porém, o objetivo era o de avançar o máximo, enquanto houvesse luz do sol.


Boas notícias!

Antes, porém, preciso dar a boa notícia de que minha máquina fotográfica não estragou com o mergulho que havia dado no passeio ao “Poço Azul”, na tarde passada. Antes de sair, resolvi ligá-la a fim de saber se, pelo menos, funcionava.

Fiquei contente ao ver piscar a luz indicadora de funcionamento. Contudo, ainda não poderia conceder-me o luxo de comemorar, pois, apenas imaginei que estivesse trabalhando corretamente por ver o display da câmera que voltara a exibir suas funcionalidades e configurações. Nesse momento, ainda não sabia se as imagens que registrasse ficariam em perfeitas condições. Dessa forma, só iria descobrir sobre as consequências do desastre momentos mais tarde, quando conectasse a câmera ao computador. Rapidamente a desliguei para não abusar muito da sorte e, por fim, iniciei a viagem.

Posso comentar que, ao transitar pela BR-242 encontrei um trecho de estrada muito bom que vai de Lençóis/BA até o entroncamento com a BR-116. Entretanto, confesso que mesmo assim a atenção foi constante, pois, vez ou outra observei buracos e irregularidades na pista.

Pois bem, a viagem seguia tranquila quando a uns 100 km de chegar em Feira de Santana/BA resolvi ligar novamente a câmera de filmar que, até então, estava desligada. Minha intenção era deixá-la funcionar a todo vapor.

— Ahh! Mas, se ela estiver molhada por dentro não poderá ocorrer algum curto-circuito que a fará estragar de vez? – Indagará o(a) leitor(a).

Respondo que sim, e decidi por arriscar! Entretanto, pensei que se ela tivesse que estragar que isso acontecesse logo, até chegar em Feira de Santana/BA, no máximo, pois, já havia pesquisado na internet uma loja em Salvador/BA onde poderia adquirir uma nova máquina caso o pior acontecesse. Dessa maneira, no trevo de Feira de Santana/BA eu poderia desviar-me em tempo hábil para Salvador/BA.

A foto a seguir reflete como as imagens foram registradas nesse tempo em que o equipamento ficou ligado.



Ao chegar em Feira de Santana/BA, passei do ponto onde poderia ter desviado para entrar no anel viário da cidade, o que proporcionaria economia de tempo e poupar-me-ia do estresse e contratempos do trânsito da cidade. Contudo, consegui algumas valiosas informações com o frentista de um posto, mais à frente, e com elas pude atravessá-la com maior rapidez. Note que, nesse momento, a câmera já registrava imagens em condições bem melhores e a estratégia de mantê-la ligada vinha dando certo.



Logo depois de atravessar a cidade, preocupei-me em encontrar um bom posto de combustível, com restaurante ou lanchonete, a fim de que pudesse parar e almoçar. Também seria bastante conveniente, pois, assim, poderia aproveitar a oportunidade para conferir a qualidade das imagens e vídeos gravados pela câmera até aquele instante e, até mesmo, verificar se algo estava realmente sendo registrado.

Essas foram as imagens da minha chegada e parada para lanche bem como o momento em que liguei o computador para averiguar as imagens.




— Ufa! – Suspirei aliviado.

Ao visualizar as fotos e vídeos comprovei que os primeiros registros do dia estavam bem ruins e com pouca nitidez – como os que exibi anteriormente  e com o passar do tempo terminaram por melhorar. Fiquei bastante contente ao ver que tudo funcionava bem e que não precisaria ir até Salvador/BA em busca de outra máquina fotográfica. Para minha alegria o cronograma não sofreria atrasos. Até confesso que uma possível alteração do percurso não seria um grande inconveniente. Por outro lado, a possibilidade de não poder registrar as fotos da viagem me deixaria por demais frustrado.


Descobrindo atalhos

Muito bem, resolvido, pelo menos por ora, o problema com a câmera, então, “tirei” um momento para prosear um pouco com o funcionário da lanchonete enquanto comia algo e me reidratava.



Contava sobre a viagem que fazia e quando perguntei a respeito de como estaria a estrada nos próximos km, no sentido para Salgueiro/PE, o funcionário logo respondeu-me com uma indicação: disse que seria mais vantajoso se tomasse o caminho para Petrolina/PE, passando antes por Capim Grosso/BA e Senhor do Bonfim/BA. Ainda comentou que era uma boa estrada e que, desse modo, economizaria tempo e encurtaria a distância.

De inicio fiquei um pouco apreensivo em mudar a rota, mas, achei que deveria pensar a respeito enquanto terminava de comer. Ao final, agradeci as dicas dadas pelo rapaz, paguei a conta e me despedi.

Todas as manhãs, sempre antes de iniciar o percurso, dou uma olhadela no itinerário das cidades pelas quais terei que passar durante cada dia de viagem, além de manter essa lista guardada no bolso do casaco para eventuais consultas. Todavia, o caminho sugerido pelo rapaz jogava por terra todo o meu planejamento dos próximos dois dias.

Até agora, apesar de ter passado por alguns pontos de dificuldade, não houve nenhum momento em que me vi no sufoco para encontrar o caminho a percorrer, bastando apenas conferir periódica e atentamente meu prático itinerário de bolso, que continha a marcação das cidades pelo trajeto.


Um pouco de mágica

Porém, como a rota sugerida era totalmente alheia ao que havia programado inicialmente, então, precisei “tirar o coelho da cartola” e, assim que me aproximei da moto, busquei logo na bagagem o aparelho de GPS que havia levado para me auxiliar caso as “coisas” (leia-se caminho) começassem a ficar mais complicadas.



Visualizei o trajeto pelo mapa do GPS e vi que realmente seria mais vantajoso seguir a indicação dada. Rapidamente, programei o dispositivo para que me levasse ao “atalho” comentado pelo funcionário. Em seguida, logo após ter acomodado o GPS no suporte, parti dali.




Após alguns km rodados (aproximadamente 15 km), desviei-me da BR-116 e tomei o rumo da BR-324 no sentido para Capim Grosso/BA. A BR-324 estava ótima e quase não vi buracos ao trafegar por ela.



Não posso afirmar o mesmo para além de Capim Grosso/BA, pois, nessa mesma cidade mudei o sentido e entrei na BR-407 que também me sinto confortável em elogiar porque no trecho por onde passei ela se mostrou com boa sinalização e asfalto de qualidade. A viagem seguiu tranquila até que, nas redondezas de Senhor do Bonfim/BA, uma parada obrigatória impediu a passagem por uns 20 minutos.



Depois, aproximando-me do fim da tarde, vi belas paisagens na estrada.



Ahhh! Cuidado com o trem no caminho para Juazeiro/BA.



E com os buracos na pista também.




E agora, onde vou passar a noite?

Enfim, chegando em Juazeiro/BA encontrei trânsito bastante carregado. Minha intenção era a de aproximar-me o máximo da saída para Teresina/PI, pois, no dia seguinte, quando saísse de viagem, não queria perder tempo em meio ao trânsito.



Dessa maneira, “pergunta daqui, pergunta dali”...





Precisei cruzar a cidade, pela própria BR-407, até o ponto em que considerei ser o momento de parar porque o cansaço já começara a incomodar. Foi nesse instante, entre a decisão de parar e a entrada no hotel onde iria pernoitar, que passei por grande susto e momentos de apreensão.

Após um dia calmo de viagem, onde o máximo de preocupação que tive foi pensar se perderia uma câmera de vídeo ou não, mal sabia o que ainda estava por vir nesses últimos minutos até encontrar um local definitivo para dormir.

Pois bem, vinha calmo, feliz e sorridente pela estrada afora quando parei, pela primeira vez, em frente a um hotel na beira da rodovia, em meio ao trânsito infernal do momento, a fim de pedir informações sobre a estadia. À primeira vista, fiquei receoso de que não houvesse garagem privativa para guardar a moto, o que me foi comprovado logo depois de fazer as primeiras perguntas ao funcionário. Mesmo sendo um local estratégico para ficar – de fácil acesso à estrada e saída rápida para o dia seguinte – desisti pelo fato de ter que deixar a motocicleta estacionada na frente do hotel e pensei que isso não seria uma boa ideia.

Assim, continuei a procura por um local onde dormir em Petrolina/PE. Voltei para a avenida movimentada e segui no mesmo sentido. Mais à frente, saí da avenida, novamente, para solicitar mais informações sobre onde poderia encontrar outro hotel. O homem que atenciosamente me atendeu parecia ser funcionário de uma oficina mecânica que, devido ao horário, estava por fechar.

Tendo ouvido a explicação, eu a havia entendido bem e estava pronto para ir embora quando se aproximou de nós um outro homem que parecia ser colega desse que me atendera, perguntando sobre qual era a minha dúvida. Após termos dito que procurava um hotel, esse segundo homem, que chegara depois, num sinal de contrariedade, balançou a cabeça e corrigiu o primeiro que havia conversado comigo anteriormente. Disse ele que já estava por sair, que conhecia um hotel no caminho de volta para casa e que eu poderia acompanhá-lo.

Num reflexo instantâneo, por medida de segurança, quase recusei pensando em dizer que havia entendido onde ficava o hotel que o primeiro homem havia indicado, porém, como num daqueles momentos em que parece que não raciocinamos direito, decidi por aceitar a oferta.

Por conseguinte, mesmo tendo consentido em acompanhá-lo, fiquei com a “pulga atrás da orelha”, com uma sensação de insegurança enorme. No entanto, deixei-me levar pelo cansaço na hora de aceitar e pensei que enquanto o estivesse acompanhando, caso percebesse que íamos por um trajeto que eu julgasse inseguro, então, poderia a qualquer momento dar meia volta e literalmente correr para outro caminho.

Enfim, confiando na boa índole do cidadão, iniciamos o percurso tão logo terminou de fechar a oficina. Cautelosamente e sempre alerta fui seguindo-o por onde ia. Muito bem! Voto de confiança dado, voto de confiança reconhecido. Ao fim de poucos minutos chegamos ao lugar onde o funcionário da oficina havia sugerido levar-me. Aparentemente, bom para apenas o pernoite.

Estacionei a moto na rua, agradeci a ajuda e fui saber das condições do hotel que, mais tarde naquela mesma noite, terminei descobrindo estar localizado à beira da rodoviária e não ser realmente um hotel, mas sim, um dormitório. Tratativas realizadas e pagamento feito adiantado, guardei a moto na garagem e comecei a descarregar a bagagem. Removi apenas as malas laterais e o galão de água amarrado sobre o lugar do carona.


Conhecendo o ambiente

Enquanto era conduzido para o quarto, observei que sai da recepção e passei direto pelas escadas que levavam aos quartos do segundo andar, viramos para o corredor subsequente e, alguns passos mais, tomamos o rumo, à esquerda, do terceiro corredor onde se iniciavam os quartos; observava o local que, por sua vez, tinha acomodações muito simples, uma ao lado da outra, porta colada com porta, algumas até escancaradas devido ao calor que fazia em seu interior e porque alguns dos hóspedes assim as preferiam deixar; com pequeninos e apertados recintos, a ponto de caberem não mais que uma cama e cadeira, pois, o banheiro ficava do lado de fora e era compartilhado com os demais nas mesma condições... assim percebia enquanto avançava.

Ao final dessa “viela”, um paredão de cimento rebocado se via à frente, com vista para o céu por não haver qualquer tipo de cobertura. O chão, não menos áspero e acinzentado que seu irmão paredão. À esquerda, quartos; à direita, mais quartos; abertos, fechados; ocupados, desocupados; uns, pequenos, outros, menores ainda; e no fim do corredor, meu quarto.

Ainda, se me permite o(a) leitor(a) e antes que me julgue mal, apesar de comentar que as condições do hotel eram mais simplórias, preciso dizer que não tenho frescura quanto a ficar escolhendo as acomodações onde dormirei. Posso afirmar, sem dúvida, que se não houver opção, durmo onde for possível. Contudo, por outro lado, admito que quando há possibilidade de proporcionar-me um agrado não vejo problema algum em fazê-lo, o que não era o caso dessa vez.

Então, chegamos ao quarto onde passaria a noite e, assim, o funcionário entregou-me a chave e deixou-me. Acomodei o bauleto e o galão de água que havia descarregado da moto e sai para buscar o segundo baú.


Puxa vida! Onde será que fui me meter?

Entendendo que tudo já estava resolvido e que daí em diante seria só “contar carneirinhos” e dormir, alguns instantes mais tarde, por volta das 6h30, com fome e precisando me alimentar, resolvi ir até a lanchonete / refeitório, ao lado do hotel, para comprar algo. Foi a partir de então que, daí a 10 minutos, passaria por um grande susto e aflição.

Ainda vestido com o macacão de viagem (na verdade, a jaqueta já havia tirado) passei pela recepção do hotel onde, naquele instante, além do funcionário, havia três outros homens que me olharam como se nunca tivessem visto alguém vestido daquele jeito. Noutros tempos, em experiência semelhante, a sensação fora bastante cômica (veja o relato do “Dia 17. H-OVNI: HOmem Viajante Não Identificado” para saber o que houve), porém, dessa vez, da maneira como me encararam, senti-me estranha e ligeiramente acuado.

Ao passar pela porta que dava para a rua, outros dois rapazes, bem acomodados nas cadeiras que os sustentavam, se entreolharam como se, aparentemente, perguntassem:

— Que p...rra é essa?

Não dei bola e, fingindo não ter visto nada, segui adiante até passar pela entrada da garagem e chegar ao pequeno refeitório. Já apreensivo pela situação, pedi apenas um pão com presunto e queijo, frio mesmo e "para viagem", retirei um refrigerante em lata do refrigerador e sentei-me para esperar.

Já havia passado uns 10 minutos desde o pedido feito e, então, comecei a ficar inquieto com a demora no preparo do simples sanduíche. 

— Ora, o lugar estava vazio – pensei.

Nesse instante, entra o funcionário do hotel e pega um prato para servir-se da comida exposta sobre a mesa térmica do restaurante. Escolheu um tanto disso, um bocado daquilo e outro pouco de algo mais... quando, de repente, interrompeu suas atividades para aproximar e apoiar-se na janela localizada bem atrás de mim, por iniciativa própria ou por algo ou alguém que lhe tivesse chamado a atenção do outro lado... enfim, inicialmente pouco importava-me o motivo, entretanto, fato é que o danado apontou o dedo indicador para mim, de cima para baixo, sinalizando para alguém do lado de fora, como se quisesse direcionar a atenção para a minha presença.


Imagem retirada da internet. Meramente ilustrativa.

— Minha nossa! – Instintivamente pensei. Ou melhor, nessa hora, nada pensei. Permito ao(à) leitor(a) apenas imaginar a minha fisionomia de espanto e preocupação que foi de arrepiar os cabelos:
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Imagem retirada da internet. Meramente ilustrativa.

Confuso, pode indagar-me o(a) leitor(a) se o funcionário teve o descaramento de apontar-me diretamente o dedo, na minha “fuça”. Logo, esclareço que não, pois, eu estava mais ou menos de costas para ele. No entanto, assim o vi fazer por causa do reflexo de suas ações que passaram, como um nítido filme, no espelho que estava afixado como decoração no armário encostado na parede à minha frente. 

 Que sorte espetacular a minha, hein?... por aquele espelho estar ali.


Socorro! Avisem a polícia

Consequentemente, esperei apenas o sujeito dar uma meia-volta, levantei-me e, descaradamente, fui aparecer na cozinha a fim de cobrar, da cozinheira, o meu sanduíche. Não sei se minha imaginação estava – por demais – fértil nesse dia, a ponto de me fazer ver fantasmas onde não existiam, ou se o somatório das experiências dessa última meia-hora realmente comunicavam-me que ali não seria o melhor lugar para estar nessa noite. Muito provavelmente se estivesse vestido como um viajante comum poderia ter passado desapercebido, porém, com toda aquela parafernália com a qual cheguei, todos as atenções e olhares curiosos se voltaram para mim.

Chegando à cozinha gentilmente perguntei à cozinheira a respeito do meu lanche e ela esclareceu que já estava a caminho. Agradeci a atenção, pedi desculpas pela intromissão e fui saindo, contudo, não sem antes presenciar a reação da cozinheira a uma pergunta ingênua que lhe fiz e que me deixou ainda mais desconfiado da situação: indaguei-lhe sobre qual era o nome da rua em que estávamos – um questionamento de resposta simples e fácil – e o que ouvi foi uma evasiva direta que se pareceu como a de alguém que tenta esquivar-se de alguma dificuldade.

— Não. Não sei de nada! – Foi o que ouvi.

— Assim já é demais. O que é que está acontecendo! – indagava-me, numa conversa introspectiva.

Instantes depois, já com meu lanche nas mãos, apreensivo, retornei para meus aposentos. Mais uma vez peço desculpas ao(à) leitor(a) por minha tendenciosa imaginação ou pela má interpretação que possa ter atribuído aos fatos, mas, não sei se por medo real ou ilusão depressiva, lá chegando, a primeira coisa que fiz foi tentar contatar a polícia para, numa reação instintiva, dar-lhes ciência sobre onde eu estava hospedado. De forma nenhuma fiz acusações, mas, diante da possibilidade imaginada de que algo de ruim pudesse me acontecer, apenas queria que soubessem onde eu estava.

Em seguida, e me arrependo de tê-lo feito pela preocupação que lhes possa ter causado, liguei para meus familiares e, com certa prudência, tentei explicar que talvez tivesse escolhido mal o hotel onde ficaria essa noite e, então, solicitei-lhes a gentileza de também avisar a polícia a respeito de minha localização. Tamanha preocupação me assolava a mente... Repetidas vezes os pensamentos que vieram-me à consciência não permitiram-me sossegar e ficar paz.

Como se não bastassem os sustos levados até então, várias foram as vezes em que tentei ligar de volta para casa e o telefone não permitiu... o mesmo acontecendo na via contrária, quando de lá tentavam. Em algumas delas a ligação não completava ou encerrava-se abruptamente no meio da conversa; noutras, vozes desconhecidas atendiam o telefone quando ligavam para mim a partir de casa – contaram-me mais tarde os meus familiares.

— Pronto, foi sequestrado! – Imaginaram do outro lado da linha.


Vou é correr daqui logo

Em tempo, ainda a “salvo”, decidi que ali não ficaria mais e, nas vezes subsequentes em que a ligação telefônica se firmou com sucesso, terminei por bolar um plano: eu diria que estava acompanhado por outros colegas motociclistas, dos quais tinha desencontrado, e que havia recebido uma ligação desses supostos amigos requisitando a minha presença em outro hotel – também inventado.

Dito e feito... se ao entrar realizei duas viagens para descarregar os baús laterais da moto, na saída, não precisei retornar ao quarto uma segunda vez, pois, tendo que passar pela recepção do hotel e anunciar minha partida, assim de forma tão repentina, não estava disposto a voltar novamente para o quarto a fim de pegar seja lá o que for que ficasse para trás. Não queria dar tempo, ou oportunidade, para reflexões e argumentações filosóficas da contraparte.

Então, imaginem-me com a jaqueta já vestida, entreaberta, e o par de luvas jogado para dentro, a chave da moto pendurada no pescoço, o capacete encaixado pela metade na cabeça e equilibrado com a testa, uma mala erguida em cada mão, o galão d’água prensado debaixo da axila... e duas redes elásticas de nylon penduradas na alça da calça. Foi assim que deixei o quarto, rumo à recepção, e com o calor que fazia, lá cheguei transpirando “em bicas”.

Foram rápidas e sucintas as minhas palavras para o funcionário:

— Amigo, não vou poder ficar porque blá, blá, blá... e mais blá, blá, blá!

Na verdade, o que disse foi só o primeiro "blá blá blá", o segundo, é invenção minha. Fato é que ele não me devolveu os R$80,00 da hospedagem, quitados de forma antecipada, e que diante das circunstâncias não fiz questão de reaver. Antes de continuar meu caminho, o sujeito ainda me incentivou a conversar com os meus (supostos) camaradas para que, caso quisessem, voltássemos e nos hospedássemos todos no hotel – de onde eu, agora, corria. Respondi diplomaticamente dizendo que tentaria convencê-los e, definitivamente, “dei no pé”.

A procura por outro hotel continuou e rapidamente encontrei nova hospedagem, convenientemente, a algumas quadras distante dali. Dessa vez, entretanto, em um bom local e sem maiores problemas montei acampamento. Estando agora bem assentado no novo lugar, pude ligar de volta para casa e conversar com mais calma. Contaram-me que também haviam alertado a polícia a respeito do caso. Infelizmente, o sinal do telefone estava tão ruim – desligando a todo momento e, por vezes, cruzando a ligação com a de outras pessoas – que tive que desistir de conversar.

Enfim, mais tranquilo e após ter descarregado a bagagem pela segunda vez nessa noite, tomei um banho, comi uns biscoitos que trazia no baú e fui dormir. Se me perguntarem a respeito do lanche que tinha comprado no hotel anterior digo que, na correria da saída, acabei por deixá-los para trás, esquecidos.

Em tempo, antes de deitar, ao realizar o backup das imagens registradas durante o dia, pude verificar que a qualidade havia melhorado bastante.



Depois, definitivamente, fui deitar e, agora sim, pude contar “um carneirinho, dois carneirinhos, três carneirinhos... Zzzzz”.


Imagem retirada da internet. Meramente ilustrativa.

Hotel: R$100,00 + R$80,00 (do primeiro hotel de onde saí às pressas).


Dicas de viagem

  • Em Feira de Santana/BA, redobre a atenção na chegada, a fim de acessar o anel viário antes de entrar na cidade, no intuito de poupar tempo e não ter que passar pelo estresse de cruzar o centro da cidade.
  • É necessário tomar cuidado, na estrada, ao realizar paradas e falar com as pessoas, pois, algum receio e precaução ajudam um pouco a “sorte” a nos livrar de circunstâncias desagradáveis das quais muitas vezes queremos manter longa distância. Por isso procuro, na maioria das vezes, selecionar bem o ambiente onde vou parar e as pessoas a quem pedirei informações. Consequentemente, na rodovia, procure parar em pontos de abastecimento mais estruturados ou locais de maior movimento de pessoas a fim de que as condições do ambiente possam inibir a ação de quem possui maior tendência a ter atitudes mal intencionadas. Em outras palavras, o que quero dizer com isso? Quero dizer que o bandido profissional vai te pegar em qualquer lugar, independentemente de onde estiver, seja movimentado ou não, porém, ter alguma precaução ajudará a evitar o ladrão de ocasião, ou seja, o espertinho que quando percebe uma oportunidade não perde a chance de levar vantagem.




SOBRE O AUTOR

2 comentários:

  1. Até eu fiquei tensa ao ler. Ufaa tudo acabou bem.

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    1. Oi Renata. É, não foi fácil esse dia, principalmente, no início da noite como relatei. Achei melhor correr do que arriscar ficar e passar por algo mais aflitivo na madrugada.

      Um Abraço!

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